As Lendas da Quinta

A LENDA DO IMPERADOR

Algures nos inícios do século XIX, nas recônditas terras altas da ilha da Madeira, num sítio que viria a ser conhecido como Jardim da Serra, o quotidiano de muitos era determinado por poucos.

Conta-se que o fundador da atual Quinta da serra, Sir Henry Veitch pertencia a uma espécie de sociedade secreta que alegadamente se reunia na sua mística mansão todas as últimas sextas-feiras de cada mês. Apenas gente influente daquela época fazia parte destas misteriosas reuniões. Ao que parece uma delas teve convidados invulgares: Napoleão Bonaparte e Josephine, sua esposa.

Na verdade, aquilo que se pode confirmar é que napoleão Bonaparte esteve de passagem pela Ilha da Madeira, a bordo do navio Northumberland que o levaria ao degredo na Ilha de Santa Helena. Sabe-se que a viagem iniciou-se em 7 de agosto e que aportou a Santa Helena em 15 de outubro de 1815.

O construtor e original dono desta Quinta, Sir Henry Veitch, então Cônsul do reino Unido na ilha da Madeira, no dia 23 de agosto, foi a única pessoa que teve autorização para subir a bordo do navio e poder visitar Napoleão.

Diz-se que o fez porque foi o único a continuar a dar o tratamento de majestade a napoleão, enquanto todos os outros se referiam a ele apenas por General.

Reza a lenda que Henry Veitch, movendo toda a sua influência junto das autoridades portuguesas e inglesas, conseguiu que Napoleão Bonaparte e a sua esposa Josephine desembarcassem em segredo, e em segredo seguissem para a recente Quinta que Veitch tinha mandado construir no sítio do Jardim da Serra, situada no meio de mais de 115 hectares de terra e que era a “menina dos seus olhos”. Aqui existiam lendários jardins que se caracterizavam por requintados labirintos de buchos verdejantes, que no seu interior albergavam vigorosas camélias, camélias essas que ainda hoje podem ser prezadamente apreciadas, nos chamados “jardins da casa mãe”. Sabe-se que Josephine gostou muito de passear nestes jardins, que lhe faziam lembrar os tempos de esplendor e de glória que tinha conhecido em França.

Conta-se que chegados à Quinta Napoleão e Josephine foram instalados nos melhores quartos da casa, e toda a criadagem os serviu da melhor forma que sabia. Veitch, incansável nas atenções, ofereceu os seus préstimos a Napoleão, que mostrou vontade em receber alguns livros, frutas e chá, ao que muito gentilmente acedeu, enviando para o navio uma magnífica oferta de frutos, doces e vinhos velhos. Consta que Napoleão terá mandado a Veitch alguns luizes em ouro, destinados ao pagamento da hospitalidade e, diz a tradição, que o cônsul os lançara na pedra angular da igreja anglicana que foi depois construída no Funchal, ao abrir‑se o alicerce para a construção daquele templo, de cuja edificação foi o grande impulsionador.

A LENDA DA QUINTA

Era uma vez, há muito muito tempo, um escocês nobre nomeado Cônsul da Inglaterra na Madeira. Quando cá chegou visitou a ilha e apaixonou-se por um lugar em particular, localizava-se nas zonas altas de uma das encostas Sudoeste da ilha, este lugar estava cheio de plantas nativas como a urze, o loureiro e a uveira da serra, ladeado por um curso de água. Havia uma zona deste riacho que tinha uma cascata de água, onde se dizia estar uma moira encantada. O jovem Cônsul maravilhado com a exuberância da natureza nesta zona, bem como, pela lenda que albergava, mandou construir uma imponente casa, de cor rosa, ali bem perto do curso de água. Dizia-se que o Cônsul tinha deixado a Inglaterra para esquecer a morte da sua amada, falecida recentemente quando dava à luz.

Com a fundação da sua mansão, o cônsul preservou as árvores nativas mais antigas e introduziu novas espécies trazidas de todo o mundo. A plantação das árvores era feita apenas por mulheres, pois acreditava-se que as suas mãos transmitiam a fertilidade necessária ao bom desenvolvimento das plantas. Num dos seus passeios matinais pela Quinta, o Cônsul admirava a energia e resistência daqueles homens e principalmente daquelas mulheres, algumas delas ainda com filhos ao peito, que teimavam trabalhar fruto da necessidade que passavam. O jovem Cônsul, reparou então numa jovem cheia de vício, morena de olhos verdes cor de pérola, vestida de branco, mas com seu avental negro da terra a qual também pertencia. Oh! que cheiro intenso trazia nas mãos, o Cônsul confundido por tantas experiencias, perguntou: “Menina de onde vem o perfume das suas mãos?” Ao qual ela respondeu trémula: “vem da planta que trago nas mãos”. Realmente aquele era um perfume ímpar, nunca antes experimentado pelas gentes daquela terra, nem mesmo pelo jovem Cônsul. O capataz interrompeu com voz de trovão: “é um Eucalipto dos que encomendou da Oceânia!...Pelo menos foi o que disse o Homem da nau”. O Cônsul estasiado, assistiu à plantação daquela árvore como se do nascimento do seu filho se trata-se. A jovem transpirava, não só pelo árduo labor, mas sobretudo pela presença do Cônsul, que além do estatuto era jovem e belo. Quando a jovem acabou, o Cônsul despediu-se dela com um último olhar, daqueles que não é preciso explicar. Uma das mulheres mais velhas disse: “se a árvore crescer, como o que hoje aqui nasceu, não terá igual!” Dito isto abateu-se um profundo silêncio na azáfama das plantações, apenas interrompido por uma leve brisa que refrescava a face quente da jovem.

Daquele dia em diante, o Cônsul continuou os seus passeios matinais, mas com o detalhe destes incluírem a passajem pela zona onde a jovem trabalhava. Um dia o Cônsul deprimido com notícias de Inglaterra, de que o vinho que tinha exportado para lá não tinha chegado, foi aclarar ideias para debaixo do Eucalipto; por sorte a jovem estava a regar a vigorosa árvore. Não se atreveu a falar, mas o Cônsul aproximou-se dela, pediu-lhe permissão para lhe pegar nas mãos, olhou-lhe nos olhos e pediu-lhe para que se encontrasse com ele ao fim de cada dia junto daquela árvore. Os dois apaixonaram-se e casaram às escondidas, pois o Cônsul precisava da aprovação do pai da jovem que estava para as Índias. O certo é que o Cônsul sabia que a sua família o deserdaria se soubesse que se tinha casado com uma jovem plebe. Por isso e como anualmente tinha uma viagem à Inglaterra, o Cônsul teve que deixar a sua amada na ilha e partir para a Grã-Bretanha. Disse à sua mulher que demoraria 1 ano até poder vê-la novamente, a jovem compreendeu mas é claro, entristeceu. Diz-se que durante esse ano a jovem visitava no final de cada dia o já enorme Eucalipto. Passou-se um ano, dois, três, uma década e o Cônsul nunca regressou. Durante 13 anos, a jovem esperou e desesperou diz-se que o Eucalipto foi regado durante esse tempo pelas suas lágrimas e que durante este tempo o Eucalipto deixou de crescer.

Certo dia chuvoso, a velha que um dia disse que a árvore iria “crescer sem igual”, disse à jovem mulher: “a árvore voltou a crescer, tem mais de 1 metro de altura”. Passada uma semana continuava a chover, viu-se ao longe bandos de aves a atravessar agressivamente o vale, de seguida começou a ouvir-se uma enorme atroada. As gentes daquela terra habituadas ao sossego, ficaram assustadas e concentraram-se na mansão do Cônsul. Parara de chover e eis que aparecia à entrada da Quinta, mesmo ao lado da árvore carismática o majestoso Cônsul montado a cavalo. A velha exclamou: “a árvore que une só parará quando esbarrar no céu!”

De todos os eucaliptos plantados nesta época este continua a ser o mais alto.E é por tudo isto que se diz que quem à Quinta da Serra vier, e o eucalipto abraçar, terá um Amor Eterno.  

A LENDA DO LAGO

Diz-se que desde tempos imemoriais esta ilha é habitada por seres místicos. Este preciso lugar foi palco de uma luta Titânia entre duas feras, que amaldiçoadas pela cobiça de manipular um dos quatro elementos - a água, amaldiçoaram os peixes que nela viviam, tornando-os pretos, vermelhos e até híbridos de duas cores, as cores das trevas. Toda a ira deste mundo foi despejada naqueles 7 dias e 7 noites, ira dos infernos que fazia a terra tremer, as aves do céu migrar e estrondos longe ecoar.

 O acontecimento fez-se chegar ao recém-chegado Cônsul Henry Veitch, corajoso partiu e ao fim do 7º dia de batalha deparou-se com duas criaturas, que só em algum pesadelo imaginara existir. As duas feras desgastadas, localizavam-se lado a lado, correspondendo aquilo que hoje conhecemos como lado direto e lado esquerdo do lago. O Cônsul de forma a saber o que se passava e resolver tão sombria situação, indagou as feras e ao fim de várias horas de negociação, mesmo no final do 8º dia, acordou-se entre as duas criaturas e o representante dos Homens dividir as águas e camuflar aquele espaço. Ao Cônsul interessava acabar com aquela derradeira batalha e evitar o aparecimento de semelhantes criaturas, que durante séculos atormentaram os habitantes desta ilha. As criaturas juraram sob compromisso de sangue não voltar a incomodar os Homens. O jovem Cônsul ordenou então a construção de um pequeno mas simétrico lago, mesmo no centro do local onde ocorrera a batalha. Um painel de azulejos constituído por 7 cruzes inteiras e 4 meias cruzes, duas metades ao centro e duas metades nos estremos revestiam as paredes do pitoresco lago. As sete cruzes de um lado simbolizam os sete dias, e as outras sete do outro, as sete tenebrosas noites de batalha. A fechar, as duas meias cruzes dos extremos representam o 8º dia e a oitava noite, os momentos de negociação. Exuberantes árvores e verdejantes jardins foram criados à volta do lago para camuflar a devastação daquele cenário e as pegadas das horrendas criaturas. Ao centro, uma levada de largura apreciável, rasgara em duas partes iguais o campo de batalha e transportara o tão ambicionado “quarto elemento”, invisivelmente meias águas para um lado, meias águas para o outro, nem mais, nem menos! A divisão das águas, correspondia assim às duas meias cruzes ao centro do lago. O milagre da divisão de tal Bem, como poder conciliador entre as duas místicas feras.

Muitos anos passaram desde este acontecimento e com o passar do tempo, houve um aumento da população na ilha e com ele as necessidades de água também aumentaram. Assim os Homens desviaram parte da água que abastecia o lago e logo algo se exteriorizou naquele peculiar lugar. Manifestação das ancestrais criaturas ou não, o facto é que, quer à direita como à esquerda do lago, os históricos azulejos foram violentamente destruídos. Diz-se por aqui, que este é um aviso das imemoriais criaturas aos Homens e que afinal de contas elas existem mesmo...

 

 

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Quinta da Serra, Estrada do Chote Nº 4 - Jardim da Serra, Madeira 9325-140 Portugal, Camara de Lobos - T. +351291640120